Em tempos de algoritmos e inteligência artificial, um projeto nas escolas públicas do Distrito Federal mostra que a tecnologia também pode ser ferramenta de empatia e cuidado. O Voz Ativa, iniciativa que une jogos digitais, escuta ativa e análise de dados, foi criado para mapear o clima socioemocional dos estudantes e prevenir problemas como evasão escolar, bullying e sofrimento emocional.
“Queremos captar os sinais antes que eles se transformem em problemas maiores. A escola precisa ser um espaço onde os alunos se sintam ouvidos e acolhidos”, explica Alysson Sanches, coordenador do projeto.
O projeto já está presente em mais de 70 escolas públicas do DF. Por meio de jogos digitais lúdicos, os estudantes interagem com situações simuladas e, sem perceber, oferecem pistas sobre como se sentem, como veem seus colegas e como percebem o ambiente escolar.
As informações captadas pelos jogos são transformadas em relatórios automáticos, que indicam emoções predominantes, relações interpessoais, sentimento de pertencimento e sinais de risco. “Esses dados são fundamentais para que professores e gestores tomem decisões mais assertivas. Não são só números: são pontos de partida para mudar realidades”, afirma Cristiane Pereira, especialista em educação e uma das responsáveis pela implementação do projeto.
Os relatórios são utilizados para fortalecer vínculos, redesenhar estratégias pedagógicas e elaborar políticas públicas. De forma inovadora, o projeto combina tecnologia e escuta com a vivência cotidiana das escolas.
O uso da tecnologia é acompanhado por um rigoroso protocolo de proteção de dados. Todo o processo está alinhado à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), com medidas como anonimização, criptografia e controle de acesso restrito.
“O respeito à privacidade dos estudantes é inegociável. Nosso compromisso é com a segurança e com o uso ético das informações”, enfatiza Sanches.
As escolas selecionadas representam realidades diversas do DF, com foco em regiões de maior vulnerabilidade socioeconômica. Além disso, o Voz Ativa tem um olhar especial para os estudantes atendidos pelo programa Superação, que lida com jovens em situação de distorção idade-série e outras dificuldades na trajetória escolar.
“A ideia é entender o que está por trás das dificuldades de aprendizagem e permanência na escola. A partir disso, queremos construir caminhos mais justos e eficazes para esses estudantes”, explica Pereira.
Embora o piloto ocorra no Distrito Federal, o projeto já nasce com vocação nacional. A plataforma está sendo desenvolvida com foco na escalabilidade e pode ser adaptada para outras etapas da educação básica e outras regiões do país.
“Cada realidade escolar tem suas particularidades, mas o princípio da escuta ativa é universal. Nosso sonho é que o Voz Ativa chegue a todas as redes públicas do Brasil”, diz Sanches.
Mais do que um software, o Voz Ativa representa uma mudança de cultura: a ideia de que ouvir os estudantes é o primeiro passo para cuidar deles. Em um momento em que os indicadores de saúde mental entre jovens são alarmantes, o projeto propõe uma resposta concreta e sensível.
“Não dá mais para esperar que os alunos falem por último. Eles têm que falar primeiro”, resume Pereira.
A iniciativa se destaca como exemplo de inovação social aplicada à educação pública. Ao reunir gestores, professores, estudantes, desenvolvedores e formuladores de políticas públicas em uma mesma estratégia, o Voz Ativa promove uma atuação integrada, onde dados se transformam em empatia e tecnologia serve ao propósito de inclusão e justiça educacional.

Este projeto está sendo realizado através do Termo de Fomento Nº 971463/2024, Processo no. 01245.000396/2024-61, celebrado em 12/2024 entre Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e o Instituto MultipliCidades. CNPJ: 36.187.736/0001-68 | Valor do termo de Fomento: R$ 5.402.425,00.